Introdução ao pensamento crítico

Nas sociedades atuais temos à disposição uma quantidade massiva de informação. As tecnologias digitais permitem-nos o acesso rápido e trouxeram-nos novas possibilidades para aprender, novos espaços de aprendizagem, interação e comunicação. Ao mesmo tempo, com a internet aumentou bastante a quantidade de informação duvidosa disponível, das mais variadas fontes, com qualidade e credibilidade questionável. Muita dessa informação passa para outros canais de comunicação como televisões, jornais, revistas e para as conversas entre pessoas no dia a dia.

Nas redes sociais a circulação da informação é tanta e tão rápida que muitos dos fenómenos imitativos de partilha, resultam na propagação de todo o tipo de conteúdos, sem se cuidar da fiabilidade da informação. Se por um lado a abundância de informação permite o desenvolvimento pessoal e cultural do cidadão comum, de uma forma que seria inimaginável algumas gerações atrás, por outro lado, também pode levar a uma ignorância impressionante.

É necessário pensar bem, refletir, usar o pensamento e o raciocínio como uma ferramenta que nos permita separar o trigo do joio, que nos auxilie a identificar a qualidade das fontes de informações às quais temos acesso, mas também, que nos permita pensar e peneirar as crenças que temos sobre nós mesmos e o mundo.

Muitas das vezes assistimos nas redes sociais a discussões e ao debitar de opiniões que ilustram bem o pensamento enviesado dos seus interlocutores. Raciocínios e opiniões baseados numa compreensão insuficiente dos fenómenos, e acontece que certas pessoas se agarram às suas próprias crenças de forma cega, rejeitando toda a evidência que aponta no sentido oposto.

Os preconceitos e os estereótipos, por exemplo, são produtos desta forma de pensamento. Estes pensamentos não são baseados numa verdadeira reflexão, mas sim em atalhos cognitivos inquinados.

Para pensar bem, vários autores, desde a antiguidade clássica, advogam o pensamento crítico e reflexivo como o melhor e mais potente antídoto para examinar as crenças erróneas.  O pensamento crítico também passa por dar a nossa opinião, mas isso não é suficiente. Podemos facilmente expressar a nossa opinião sem que isso traduza algum tipo de pensamento crítico. Na verdade, basta ouvir alguns políticos, intelectuais e comentadores para perceber o quão triste isto é.

pensador

O que é o pensamento crítico ?

O Pensamento Crítico é o estudo ativo, persistente e cuidado de uma crença ou de uma suposta forma de conhecimento através da análise dos fundamentos que a apoiam e das conclusões para que apontam (Dewey, 1933).

O pensamento crítico não é uma questão de acumulação de informação. Uma pessoa com boa memória e que conhece muitos factos não é necessariamente um bom pensador crítico. Um pensador crítico é capaz de deduzir consequências daquilo que sabe, faz um bom uso da informação para resolver problemas e procura fontes de informação relevantes para se manter informado.

Por outro lado, o pensamento crítico não deve ser confundido com criticar as pessoas, duvidar delas ou contradizê-las. O pensamento crítico é uma ferramenta útil para expor falácias e maus raciocínios, mas o que se critica são alegações e não pessoas.

O pensamento crítico ajuda-nos na aquisição de conhecimento, na melhoria das nossas teorias e no reforço dos nossos argumentos. Pensar criticamente é mobilizar e envolver-se com o pensamento independente e reflexivo. É saber usar os instrumentos argumentativos à nossa disposição e sustentar as nossas opiniões com argumentos sólidos.

As competências associadas ao pensamento crítico permitem-nos:

♦ Compreender ligações lógicas entre ideias

♦ Identificar, construir e avaliar argumentos

♦ Detectar inconsistências e erros comuns do raciocínio

♦ Resolver problemas de forma sistemática

♦ Identificar a relevância e a importância das ideias

♦ Refletir na justificação das crenças e valores próprios

thinking

 A importância do pensamento crítico

O pensamento crítico é uma característica importante e transversal da cognição. A capacidade para pensar de forma clara e lógica é importante independente do que escolhemos fazer na vida. O pensamento crítico não se restringe apenas a uma área do conhecimento. Ser capaz de pensar bem e resolver problemas será sempre uma vantagem em qualquer profissão e atividade.

O pensamento crítico é importante numa sociedade em constante mudança. Numa sociedade alimentada pela informação e tecnologia, as mudanças ocorrem de forma eficaz e rápida. Terão mais vantagens as pessoas que desenvolvam competências intelectuais flexíveis, e que possuam a capacidade para analisar a informação e integrar diferentes fontes de conhecimento na resolução de problemas.

O pensamento crítico promove a criatividade. Para pensar “fora da caixa” é necessário desafiar consensos, e procurar abordagens menos populares. O pensamento crítico ajuda-nos a avaliar novas ideias, a selecionar as melhores, a modificá-las e melhorá-las, se necessário.

O pensamento crítico é fundamental para a autorreflexão. Para viver uma vida significativa temos de justificar e refletir nos nossos valores e decisões. O pensamento crítico fornece-nos ferramentas uteis para a autoavaliação.

O pensamento crítico é um dos fundamentos da democracia. Para uma sociedade democrática funcionar em pleno são necessários cidadãos que pensem criticamente sobre os assuntos sociais, informados, proativos, e capazes de um julgamento atento da governação, evitando preconceitos e enviesamentos. Para resolver muitos dos problemas das sociedades atuais serão necessárias soluções criativas e seguras, o pensamento crítico é a nossa melhor defesa contra a superstição, a autoridade religiosa, política ou económica. Dá-nos instrumentos para refletir sistemática, rigorosa e claramente de modo a determinarmos se o que está a ser dito é ou não é sustentável.

O pensamento crítico será um tema transversal aqui no blogue, e em breve voltarei ao tema com algumas dicas para desenvolver algumas das competências que lhe estão associadas. Por outro lado, também me interessa escrever sobre a sua importância para a autorreflexão e como ferramenta útil na eliminação de crenças irracionais.

Referências bibliográficas:

Bowell, T., & Kemp, G. (2002). Critical thinking: a concise guide. London: Routledge.

Dewey, J. (1933). How we think. New york: Heat.

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