Antes de procurar tratamentos de neuroterapia leia isto

Há umas semanas, uma amiga perguntou-me se conhecia a neuroterapia e se era eficaz. Foi a primeira vez que ouvi o conceito de neuroterapia, mas pensei que fosse algo semelhante com o neurofeedback.

Disse-lhe na altura o que me recordava sobre o assunto – que a Eletroencefalografia (EEG) regista as ondas da atividade eletrica do cérebro e a ideia é que se as frequências dessas ondas forem mostradas à pessoa, através de imagens ou sons, esta conseguirá exercer algum controlo sobre elas.

A minha amiga falou-me do instituto que promovia essa terapia e eu comprometi-me a vê-lo mais tarde e dar-lhe a minha opinião. Após a visualização do site, e alguma pesquisa, resolvi escrever este post, e partilhar as minhas reflexões sobre o assunto.

No site do instituto português de neuroterapia, pode ler-se que:

Neuroterapia consiste na utilização terapêutica de diferentes estratégias de Neurofeedback, com o objetivo de diminuir os sintomas resultantes de disfunção do Sistema Nervoso Central. É uma forma de tratamento não farmacológico, não invasivo, sem efeitos secundários, eficaz numa grande variedade de condições médicas e psicológicas de base neurológica.

Os seus proponentes e praticantes oferecem tratamento para a perturbação do espectro autista, ansiedade e stress, depressão, e referem muitas vezes o conceito de disfunção cerebral.

Propõem-se ainda tratar o Consumo e dependência de drogas ou álcool e perturbações alimentares. Indicando que:

“SINTOMAS A MINORAR: Falta de acesso às emoções e baixa capacidade de auto-conforto, defensividade, elevada argumentabilidade, cinismo”

Para o tratamento da Fibromialgia e enxaquecas, apresentam:

“SINTOMAS A MINORAR: Dor gerada pelo cérebro (má interpretação da origem e qualidade do sinal), dor vascular”

O problema é que este tipo de reivindicações não são acompanhadas da fundamentação que seria necessária para considerar este tipo de terapia eficaz EM TODAS AS ÁREAS que alega. Aliás, antes pelo contrário, todos os estudos que encontrei nas minhas pesquisas apontam no sentido inverso.

children eeg

Ora vejamos:

Nos anos 80 e 90 do século passado, o psicólogo Barry Beyerstein escreveu vários artigos e capítulos de livros sobre o tema. Os seus estudos demonstraram que os efeitos benéficos do neurofeedback estavam relacionados com a crença da pessoa sobre a tecnologia.

Ele explicou que correlação não significa causa-efeito. E que, acreditar que as ondas alfa produzem um estado de calma quase zen, é o mesmo que acreditar que abrir um guarda-chuva produz chuva. Realizou estudos em que demonstrou que as pessoas eram capazes de produzir grande quantidade de ondas alfa mesmo em situações de ameaça de choques elétricos, por parte dos investigadores.

Um estudo de 2001, que pode ser encontrado aqui, conclui que a neuroterapia não pode ser qualificada como uma terapia comportamental baseada em evidência científica para o tratamento de perturbações psicológicas.

Um estudo mais recente de 2013, mostra que a terapia de neurofeedback com crianças com transtorno do défice de atenção com hiperatividade não é mais eficaz que um placebo.

No mesmo ano, outro estudo relata uma experiência com dois grupos de crianças com transtorno do défice de atenção com hiperatividade. Um dos grupos recebia tratamento neurofeedback, e o outro grupo, um tratamento neurofeedback incorreto e aleatório. Observaram-se em ambos os grupos as mesmos resultados.

Há indícios claros de que o que acontece de positivo para crianças e adultos é algo que acontece durante a sessão de tratamento mas que não envolve necessariamente as técnicas de neurofeedback. São necessários mais estudos para compreendermos melhor o que acontece.

De acordo com os critérios da Sociedade Americana de Psicologia Clínica de Crianças e Adolescentes (American Society of Clinical Child and Adolescent Psychology), para já, o neurofeedback é um tratamento classificado como nível 3 (possivelmente eficaz). De igual modo, o European ADHD Guidelines Group considera que o neurofeedback é uma técnica potencialmente positiva, mas que ainda fazem falta mais estudos.

Não duvido que a maior parte dos profissionais que trabalham com técnicas de neurofeedback são bem intencionados. Mas observando a literatura, existem boas razões para sermos cépticos quanto à utilização dessas mesmas técnicas.

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2 pensamentos sobre “Antes de procurar tratamentos de neuroterapia leia isto

  1. é uma coisa incrível, como as pessoas caem nestas coisas sem se certificarem bem …. Muita gente do autismo recorrer a isto na esperança de uma cura , os putos não tem melhoras nenhumas , tipo melhoral não faz nem bem nem mal… entretanto alguém ganha bué de dinheiro de certa maneira desonesto, porque estão a aproveitar-se das fragilidades dos outros e depois e como diz o povo não há pior cego que aquele que não quer ver….

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  2. Olá Ana, é importante que os pais, e as pessoas em geral, se informem bem, para tomarem a decisão mais eficaz. É um dos objetivos aqui do blogue contribuir com informação relevante e fundamentada cientificamente, para que as pessoas possam refletir, decidir e escolher a melhor opção.

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