Como lidar com acidentes naturais e catástrofes

Bom dia!

Devido aos trágicos acontecimentos que assolaram Portugal estes dias, hoje escrevo sobre o que podemos fazer, do ponto de vista da psicologia, para lidar melhor com acidentes naturais e situações de catástrofe, mais especificamente, no caso de incêndios.

Os desastres naturais como furacões, terramotos, acidentes de viação ou incêndios são geralmente inesperados, repentinos e avassaladores. Para muitas pessoas, mesmo que não sofram ferimentos físicos, podem representar um enorme custo emocional. É comum as pessoas que experienciaram um desastre terem fortes reações emocionais.

Compreender as respostas a eventos angustiantes pode ajudá-lo a lidar de forma eficaz com os seus sentimentos, pensamentos e comportamentos, e ajudá-lo no caminho da recuperação.

O que acontece às pessoas após uma catástrofe ou outro evento traumático?

O choque e a negação são respostas típicas a catástrofes naturais, especialmente pouco depois do evento. Tanto o choque como a negação são reações de proteção normais. O choque é uma alteração súbita e muitas vezes intensa do estado emocional que pode deixar a pessoa a sentir-se atordoada ou confusa.

A negação implica que a pessoa não reconhece que algo muito stressante aconteceu, ou que não experienciou a intensidade do evento. Pode sentir-se temporariamente entorpecida ou desconectada.

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À medida que o choque inicial diminui, as reações variam de pessoa para pessoa. No entanto, as seguintes reações são comuns:

Sentimentos intensos ou imprevisíveis. A pessoa pode ficar ansiosa, nervosa ou tensa. Também pode sentir-se mais irritável ou temperamental do que o habitual.

Mudanças nos padrões de pensamento e comportamento. Pode ter memórias repetidas e vívidas do evento. Essas memórias podem ocorrer sem motivo aparente e podem levar a reações físicas, como batimentos cardíacos rápidos ou transpiração. Pode ser difícil concentrar-se ou tomar decisões. Os padrões de sono e alimentação também podem ser alterados – algumas pessoas podem comer e dormir demais, enquanto outras experimentam perda de sono e perda de apetite.

Sensibilidade a fatores ambientais. Sirenes, ruídos altos, cheiro a queimado, fumo, ou outros acontecimentos podem estimular memórias do desastre, gerando maior ansiedade. Estes “estímulos ativadores” podem ser acompanhados por medo de que o evento stressante se repita.

Relações interpessoais tensas. Podem ocorrer conflitos acrescidos, como desacordos mais frequentes com membros da família e colegas de trabalho. E também retirar-se, isolar-se ou acabar com as suas atividades sociais habituais.

Sintomas físicos relacionados com o stress. Dores de cabeça, náuseas e dor no peito podem ocorrer e podem exigir atenção médica. Alguns problemas de saúde prévios podem ser agravados pelo stress.

Mesmo que não tenha sido diretamente afetada pelos incêndios florestais, a pessoa pode experimentar uma sensação de angústia ou vulnerabilidade por viver perto dos locais afetados, ou quando vê a destruição relatada nas notícias. Isto pode ser demasiado real se tiver familiares ou amigos que possam estar em perigo e ainda não sabe nada sobre a sua segurança e bem-estar.

Aqui estão algumas dicas para gerir a angústia:

Pare de ver notícias. Ver repetições intermináveis ​​de imagens dos incêndios pode tornar o seu stress ainda maior. Embora queira manter-se informado – especialmente se tiver entes queridos afetados pelas catástrofes – faça uma pausa e pare de assistir às notícias.

Seja gentil consigo. Quando testemunhamos um desastre natural, alguns sentimentos podem ser difíceis de aceitar. Pode sentir alívio se o desastre não o afetou, ou pode sentir-se culpado por ter saído ileso, enquanto tantos outros foram afetados. Ambos os sentimentos são comuns.

Encontre uma maneira produtiva de ajudar se puder. Existem muitas organizações que se mobilizam para ajudar com alimentos e outros bens, que fornecem ajuda financeira ou outra às vítimas. Contribuir ou ser voluntário pode ser uma maneira de obter uma sensação de “controlo” sobre o evento.

Procure oportunidades de autodescoberta e reconheça os seus pontos fortes. Muitas vezes, as pessoas aprendem algo sobre si mesmas e podem achar que cresceram em algum aspeto, como resultado da perseverança nas dificuldades. Muitas pessoas que viveram tragédias e passaram por adversidades, relataram, mais tarde, relacionamentos melhores e uma sensação de força pessoal maior.

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Os incêndios residenciais podem levar a distúrbios emocionais significativos. Perder a sua casa num incêndio envolve não só a perda de sua residência, mas também outras coisas de valor, como álbuns de fotos, documentos importantes e objetos preciosos. Mais importante ainda, a casa é o seu lugar de segurança e conforto. Após um incêndio, essa sensação de segurança também pode ser perdida e pode prejudicar significativamente a normalidade do quotidiano.

Felizmente, a investigação mostra que a maioria das pessoas é resiliente, e ao longo do tempo é capaz de recuperar da tragédia. É comum que as pessoas experimentem o stress nas consequências imediatas, mas, dentro de alguns meses, a maioria das pessoas consegue continuar a funcionar como antes do incidente. É importante lembrar que a resiliência e a recuperação são a norma, não o sofrimento prolongado.

Há uma série de etapas que pode seguir para construir o bem-estar emocional e obter uma sensação de controlo após um desastre natural, incluindo o seguinte:

Dê tempo para se recuperar. Antecipe que este será um momento difícil da sua vida. Permita-se ficar triste por tudo o que experienciou e tente ser paciente com mudanças no seu estado emocional.

Peça apoio a pessoas que se preocupam consigo, que possam ouvir e simpatizar com a sua situação. O suporte social é uma componente chave para a recuperação de desastres. A família e os amigos podem ser um recurso importante. Pode encontrar apoio junto daqueles que também sobreviveram ao desastre. E também pode querer contactar outras pessoas não diretamente envolvidas, que podem oferecer maior suporte e objetividade.

Comunique a sua experiência. Expresse o que está sentindo de qualquer forma que seja confortável para si – conversar com familiares ou amigos íntimos, manter um diário ou desenvolver uma atividade criativa (por exemplo, desenho, música, escultura, etc.).

Desenvolva comportamentos saudáveis ​​para melhorar a sua capacidade para lidar com o stress. Faça refeições bem equilibradas e descanse bastante. Se tiver dificuldades com o sono, poderá encontrar algum alívio através de técnicas comprovadas de redução do stress, como exercícios regulares, meditação e respiração profunda.

Estabelecer ou restabelecer rotinas. Isso pode incluir comer refeições em horários regulares, dormir e acordar a horas certas, ou seguir um programa de exercícios físicos. Construa algumas rotinas positivas para ter algo com que se ocupar durante os momentos difíceis, como um passatempo, caminhar no parque ou na praia, ou ler um bom livro. Evite tomar decisões de vida importantes. Alterar carreiras ou empregos e outras decisões importantes tendem a ser altamente stressantes em si, e ainda mais difíceis de assumir quando se está a recuperar de um desastre.

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As pessoas respondem de forma diferente ao longo do tempo.

É importante que entenda que não há um padrão de reação ao stress extremo das experiências traumáticas. Algumas pessoas respondem prontamente, enquanto outras atrasam reações – às vezes meses ou mesmo anos. Algumas pessoas sentem os efeitos adversos durante um longo período de tempo, enquanto outras recuperam rapidamente.

E as reações podem mudar ao longo do tempo. Uma série de fatores tendem a afetar o tempo necessário para a recuperação, incluindo:

O grau de intensidade e perda. Eventos que duram mais tempo e representam uma maior ameaça, e onde a perda de vidas ou perda substancial de propriedade está envolvida, muitas vezes demoram mais tempo a resolver.

A capacidade de uma pessoa para lidar com situações emocionalmente desafiantes. Os indivíduos que ultrapassaram outras circunstâncias difíceis e stressantes podem achar mais fácil lidar com a situação.

Outros eventos estressantes que precedem a experiência traumática. Os indivíduos que enfrentam outras situações emocionalmente desafiantes, como problemas de saúde sérios ou dificuldades familiares, podem ter mais reações mais intensas  ao novo evento stressante e precisam de mais tempo para recuperar.

Quando procurar ajuda adicional?

Algumas pessoas são capazes de lidar eficazmente com as demandas emocionais e psicológicas provocadas por desastres naturais, como os incêndios florestais, usando os seus próprios sistemas de suporte. No entanto, os problemas podem persistir e continuar a interferir na vida diária. Por exemplo, pode sentir um nervosismo esmagador ou tristeza persistente que afeta negativamente o seu desempenho no trabalho e nas relações interpessoais.

Os indivíduos com reações prolongadas que perturbam o funcionamento diário devem consultar um profissional de saúde mental qualificado e experiente. Psicólogos e outros especialistas de saúde mental ajudam as pessoas a encontrar formas construtivas de lidar com o impacto emocional e com o stress.

No caso das crianças, as explosões emocionais contínuas e agressividade, problemas sérios na escola, preocupação com o fogo, evitamento contínuo, e outros sinais de ansiedade intensa ou dificuldades emocionais podem apontar para a necessidade de ajuda profissional. Um profissional de saúde mental qualificado, como um psicólogo, pode ajudar as crianças e os pais a entender e lidar melhor com os seus pensamentos, emoções, sentimentos e comportamentos.

Referências bibliográficas:

Bonanno, G. A., Galea, S., Bucciarelli, A., & Vlahov, D. (2007). What predicts psychological resilience after disaster? The role of demographics, resources, and life stress. Journal of Consulting and Clinical Psychology75 (5), 671.

Bonanno, G. A., Papa, A., & O’Neill, K. (2001). Loss and human resilience. Applied and Preventive Psychology10 (3), 193-206.

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