Como saber se um estudo científico é válido e confiável?

A internet permite-nos aprender coisas novas, contribui para a nossa autoeducação, para que estejamos informados e façamos melhores escolhas. Mas se acreditarmos em tudo o que lemos na internet, o mais provável é fazermos a escolha errada. Como podemos evitar a desinformação, na era digital? Qualquer tema que pesquisamos na internet produz uma diversidade de artigos, estranhos e maravilhosos, alguns confiáveis, outros, simplesmente lixo. Como podemos saber qual a informação em que podemos confiar? Existem muitas alegações que circulam na internet, mas que não possuem evidência científica. Mas mesmo alguns estudos científicos publicados em jornais internacionais de referência podem não ser totalmente fiáveis.

Ainda assim, a informação recolhida através da investigação científica continua a ser a melhor e mais fiável fonte que dispomos para estar informado e conhecer um determinado assunto. Por isso, não devemos ter medo dos estudos científicos, mas sim conseguir identificar porque razão alguns estudos científicos são inconsistentes.

Quando lemos um estudo científico devemos ter em conta vários fatores da investigação para podermos concluir se um estudo é válido e confiável, isto pode ser mais ou menos difícil dependendo da literacia científica de cada um.

No campo da saúde mental/educação como podemos saber se uma determinada intervenção é eficaz, por exemplo no autismo, nas pessoas com depressão, ou no tratamento da ansiedade? Quais as razões pelas quais os estudos científicos podem não ser totalmente consistentes ou confiáveis?

Dicas básicas:

Observe o URL

Se a informação estiver num site com o url naturalnews ponto qualquer coisa, o mais provável é essa informação não ser verdadeira e precisa. Afaste-se de sites de notícias e curas sensacionalistas, que promovam a pseudociência e os seus respetivos gurus, ou que tentam vender-lhe alguma coisa. Procure sites que agreguem artigos científicos e jornais de referência (por exemplo: ERIC, PsycNET, pubmed, etc.). Tente determinar a confiabilidade da fonte observando o url. Se o nome do site terminar com .edu, provavelmente é uma instituição de educação. Se um site terminar em .gov, é provavelmente um site do governo. Os sites governamentais, na maior parte dos casos,  são boas fontes de estatísticas e relatórios objetivos. Mesmo assim, deve estar atento ao viés político. Os repositórios abertos das universidades e as revistas especializadas geralmente são fontes de qualidade. Quantos a outros sites, blogues, revistas, jornais, vídeos, etc., podem ser fontes muito boas ou fontes muito pobres, então, terá de avaliar a qualidade e estar atento a possíveis agendas ou tendências políticas, se existirem.

Investigue o autor

Na maioria dos casos, deve afastar-se de informações da internet que não fornecem o nome do autor. Embora a informação contida no artigo possa ser verdadeira, é mais difícil validar informações se não conhecer as competências do autor.

Se o autor for indicado no texto/artigo, tente verificar:

  • O percurso educativo/profissional do autor. É um especialista na área do estudo?
  • Descubra se o autor é publicado numa revista científica.
  • Veja se o autor publicou livros ou em revistas académicas.
  • Verifique se o autor trabalha numa instituição de investigação ou universidade.

Depois de avaliar o URL, o autor e prosseguir para a leitura do artigo/estudo, deve procurar, sempre que possível, ler o estudo original.

A seguinte lista foi simplificada para a área científica da psicologia e da educação e para ser utilizada como uma ferramenta eficaz para avaliar os “estudos” que abundam nas notícias, nas redes sociais e na internet.

Ao analisar um estudo científico tenha atenção aos seguintes pontos:

Researching online

Relativamente ao objetivo da investigação:

Verificar se o estudo aborda uma questão definida de forma clara, e se o estudo responde às questões-chave levantadas.

Quanto à objetividade dos investigadores:

Verificar a independência dos investigadores. Os investigadores que realizaram o estudo podem não ser completamente independentes. Por exemplo, podem ter formulado uma hipótese tendenciosa (tentam provar algo que já sabem o resultado) ou podem ter benefícios financeiros se alegarem que uma intervenção tem resultados positivos e é eficaz.

O estudo foi bem pensado?

Isto pode ser difícil de determinar se não estiver familiarizado com um determinado campo científico específico, mas deve ser capaz de fazer perguntas que podem ajudá-lo a distinguir os estudos científicos menos bons, daqueles que têm qualidade.

Metodologia utilizada na investigação:

Verificar a duração da investigação. O estudo pode não ter durado o tempo suficiente para que os resultados sejam válidos. Por exemplo, o estudo pode ter durado apenas algumas semanas, enquanto o efeito da intervenção pode não ser aparente até meses mais tarde.

O estudo pode ter usado técnicas que são mais suscetíveis de produzir um resultado tendencioso. Por exemplo, é mais provável que um estudo que dependa apenas da observação direta do investigador seja tendencioso, ao invés de um estudo experimental. E um ensaio clínico não aleatório é mais suscetível de ser tendencioso do que um ensaio clínico aleatório.

Os investigadores podem não ter relatado quaisquer variáveis aleatórias, ou limitações do estudo, isto é, fenómenos que possam ter influenciado os resultados.

Participantes incluídos no estudo:

O estudo pode não incluir participantes suficientes para que os resultados sejam estatisticamente significativos. Por exemplo, uma investigação que estuda meia dúzia de pessoas é muito pouco provável que seja estatisticamente significativa, ao invés de um estudo com uma amostra com mais de duzentas pessoas.

Como foram selecionados os participantes do estudo? Os participantes foram selecionados de forma aleatória?

A investigação pode não referenciar informações importantes sobre os participantes do grupo de estudo, como o tipo de condição que apresentavam ou se existiam outras condições que poderiam ter afetado o resultado.

estudocientifico01

Intervenções estudadas:

O estudo pode não apresentar informações detalhadas sobre a intervenção e como foi aplicada. Isto torna mais difícil outros investigadores replicarem o estudo e verificar a precisão dos resultados.

O estudo pode não relatar detalhadamente a intervenção recebida pelo grupo de controlo. Isto torna mais difícil comparar os efeitos da intervenção no grupo experimental em comparação com a intervenção recebida pelo grupo de controlo.

O estudo pode não apresentar informações sobre outros fatores que podem ter afetado o resultado. Por exemplo, circunstâncias familiares ou outros tratamentos recebidos ao mesmo tempo que a intervenção, poderiam afetar os resultados do estudo.

Resultados e instrumentos de medida:

O estudo pode não utilizar instrumentos de medida padronizados, ou seja, formas objetivas de medir os resultados, por exemplo, melhorias nos participantes. Isto torna difícil comparar os resultados com outros estudos

O estudo pode utilizar diferentes instrumentos de medida antes e depois da intervenção. Isto torna difícil comparar o efeito da intervenção.

O estudo pode utilizar apenas instrumentos de medida subjetivos, por exemplo, observações parentais do comportamento das crianças. Isso torna os resultados menos confiáveis.

As conclusões correspondem a outras evidências científicas?

Os resultados de um estudo são consistentes com outras evidências nesse campo? Se não, por que não? O estudo foi replicado e confirmado?

Na realidade, apenas um estudo não prova nada. A coerência e a preponderância da evidência são o que nos aponta na direção da verdade, em ciência.

As conclusões foram verificadas por outros especialistas?

O estudo foi submetido a revisão pelos pares? O jornal onde o estudo é publicado é respeitável? Um estudo que sai num jornal obscuro, sem revisão dos pares, isto é, sem especialistas para verificar o trabalho dos investigadores, não é necessariamente errado, mas deve ser altamente suspeito.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s