Porque as pessoas acreditam em teorias da conspiração?

Há um grande número de pessoas (embora estatisticamente ainda sejam uma minoria), que têm crenças conspiratórias. Estas pessoas interpretam diversos eventos de uma maneira diferente da maioria, não aceitam a versão oficial, e procuram uma visão alternativa que seja mais ou menos viável. Algumas dessas teorias são razoáveis, enquanto outras são bizarras e implausíveis. A razão pela qual as pessoas acreditam em conspirações é algo que tem sido investigado, e são apontados alguns fatores que podem ter efeito na probabilidade de acreditar em teorias da conspiração. Neste artigo, fazemos uma breve referência a alguns deles.

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O que são as teorias de conspiração?

Para entender por que razão acreditamos em teorias de conspiração, primeiro devemos clarificar o que é uma teoria da conspiração. Pode ser definida como qualquer teoria ou crença elaborada sobre a associação de diferentes pessoas e/ou organismos cujo vínculo visa alcançar a manipulação de eventos ao nível mundial, para atingir os seus objetivos, e/ou ocultar algo que afeta negativamente o resto da população, uma parte dela, ou mesmo indivíduos específicos.

Uma das principais características das teorias da conspiração é a dificuldade de alguém conseguir provar que é verdadeira. No caso de acontecimentos à escala global, os grandes eventos da história são o resultado de milhares de variáveis, uma reação em cadeia causada por um somatório de detalhes cuja manipulação é quase impossível. Por exemplo, se falarmos em dominação mundial, apesar da maior parte da riqueza do planeta estar concentrada num pequeno número de pessoas, é quase impossível que um pequeno grupo de pessoas conseguisse dominar o mundo, sem que ninguém soubesse, denunciasse ou se opusesse.

Geralmente, estas teorias são baseadas numa interpretação de algum fenómeno concreto, e seguem uma elaboração que vai para além dos factos, dados verificados, e empiricamente comprovados.

Devemos ter em conta que essas teorias não aparecem do nada: começam por algum tipo de evento real que é interpretado de uma maneira alternativa. Em alguns casos, assemelham-se a delírios típicos de diferentes transtornos mentais, o seu conteúdo não é suportado por evidência empírica (embora alguns elementos sejam considerados como evidência da teoria), não são compartilhados pela maioria das pessoas, e geralmente são teorias fixas e impermeáveis à mudança, muitas vezes considerando quem as nega, como fazendo parte da conspiração.

A manutenção da crença nessas teorias pode gerar alterações e repercussões na vida do sujeito e com as outras pessoas, como evitar a exposição a certos estímulos, embora sejam benéficos (por exemplo, vacinas). Podem ser objeto de ridicularização e crítica, impedindo a interação social ou mesmo provocando o isolamento completo da pessoa (seja porque a pessoa se isola ou por rejeição social). Também pode dificultar o desempenho académico ou profissional, dependendo do caso.

Nem todas as teorias de conspiração são iguais. Algumas dessas teorias incluem elementos de fantasia ou de ficção científica, enquanto outras são relativamente plausíveis e podem surgir a partir da interpretação de eventos reais. Na verdade, embora a grande maioria seja falsa, ou uma representação inexata de factos reais, algumas teorias inicialmente consideradas conspiradoras, ou produto de delírios, provaram ser verdadeiras, como o caso de Watergate e a corrupção no tempo de Nixon, a existência do Holocausto, ou o projeto MK Ultra. Mas isso não quer dizer que toda a teoria da conspiração seja verdade ou irá fatalmente ser provada como verdadeira, no futuro.

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Fatores ligados à crença em teorias de conspiração. 

Embora muitas dessas teorias possam parecer interessantes, regra geral, elas não são acreditadas pela maioria da população. Embora algumas sejam defendidas por mais pessoas, estatisticamente ainda são poucas as pessoas que as consideram verdadeiras, apoiam, e defendem essas mesmas teorias.

Podemos perguntar o que faz com que certas pessoas acreditem em uma ou várias teorias da conspiração, quais os aspetos comuns que facilitam que sejam criadas pequenas teorias partilhadas, e das quais não há evidências palpáveis e irrefutáveis. Nesse sentido, realizaram-se diferentes investigações a este respeito. Alguns dos fatores que foram associados a este tipo de crença em teorias da conspiração são os seguintes.

Necessidade de controlo / intolerância à incerteza. 

Algumas das pessoas que acreditam neste tipo de teorias, apresentam uma forte necessidade de controlo para lidar com a incerteza diante de eventos para os quais não encontram uma explicação, ou a explicação existente não é capaz de convencê-los. O ser humano tende a procurar uma estrutura para o mundo, e para os eventos que nele ocorrem, as teorias da conspiração podem satisfazer essa necessidade na ausência de uma explicação melhor e alinhada com a sua visão do mundo

Procurar explicações para eventos é um desejo humano natural. Estamos constantemente a perguntar porque as coisas acontecem desta ou daquela maneira. Porque tem que estar a chover no dia em que eu quero sair? Porque é que ela não me ligou nenhuma?

E não fazemos apenas perguntas. Também encontramos respostas rápidas para essas questões – não necessariamente as respostas verdadeiras, mas sim as respostas que nos confortam, ou que se encaixam na nossa visão do mundo. Está a chover porque eu não tenho sorte nenhuma, nunca. Ela não me ligou porque ela detesta quando as coisas não são como ela quer.

Todos nós temos crenças falsas, isto é, coisas que acreditamos ser verdadeiras, mas na verdade não são. Por exemplo, se acreditar que Sydney é a capital da Austrália, então é vítima de uma crença falsa. Mas uma vez confrontado com o facto de Canberra ser a capital da Austrália, mudará a sua opinião. Afinal, estava simplesmente desinformado, e o investimento emocional nesta crença não é assim tão grande.

As teorias da conspiração também são crenças falsas, por definição. Mas as pessoas que acreditam nelas têm interesse em mantê-las. Primeiro, porque investiram tempo e fizeram um esforço para compreender a teoria da conspiração para um acontecimento, lendo livros, visitando sites ou assistindo vídeos que apoiam as suas crenças. Segundo, a incerteza é um estado desagradável, e as teorias de conspiração proporcionam uma sensação de compreensão e certeza que é reconfortante.

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Eventos de vida e aprendizagem. 

Outro fator a ter em conta são os eventos específicos que vivemos, a nossa história pessoal, e as aprendizagens que realizamos ao longo da vida. Por exemplo, é mais fácil acreditar numa conspiração por parte do governo, se considerarmos que é uma entidade que age de má fé, que nos dececionou, ou engana de alguma forma.

A educação e o tipo de crenças às quais fomos expostos na infância têm a sua importância. Por exemplo, se não acreditamos em alienígenas, será difícil acreditar que uma espécie do espaço exterior está a invadir a terra, ou se alguém foi criado com pessoas que defendem uma determinada teoria, será mais fácil (embora não decisivo) que essa crença seja considerada verdadeira.

Existem muitas questões relacionadas com a educação formal, as diferentes literacias e competências que permitem ao sujeito pensar criticamente sobre o mundo, e conseguir discernir entre o que é verdade, e o que é falso. Quando analisamos uma teoria da conspiração é preciso saber combater certos vieses epistémicos básicos dos humanos.

O desejo de manter uma autoimagem positiva.  

Todos nós desejamos manter uma autoimagem positiva, que geralmente advém dos papéis que desempenhamos na vida  as nossaocupações os nossos relacionamentos com familiares e amigos. Quando sabemos que deixamos ummarca positiva na vida dos outros – como pai, cônjuge, amigo, professor ou mentor – vemos as nossas vidas como valiosas, e sentimo-nos bem connosco. A investigação demonstra que as pessoas que se sentem socialmente marginalizadas são mais propensas a acreditar em teorias de conspiração, assim como, as pessoas que se sentem únicas e especiais.   

A pessoa que se sente socialmente excluída e passa muito tempo a navegar na internet pesquisando sobre teorias de conspiração, ao conversar online com outras pessoas que possuem crenças semelhantes, ganha um sentimento de comunidade. Este sentimento de pertença a uma comunidade ajuda a manter uma autoimagem positiva.

Além disso, a pesquisa em teorias de conspiração dá à pessoa uma sensação de que ela é o titular de conhecimento privilegiado. É por isso que quando a pessoa começa a exibir todas as “evidências” contra o aquecimento global, tudo o que observamos é que a teoria da conspiração parece complicada demais para ser verdadeira, mas na perspectiva da pessoa, é claro que ela sabe mais sobre o assunto do que você.

Referências Bibliográficas:

Douglas, K. M., Sutton, R. M., & Cichocka, A. (2017). The psychology of conspiracy theories. Current Directions in Psychological Science, 26, 538-542.

Imhoff, R. & Lamberty, K (2017). Too special to be duped: Need for uniqueness motivates conspiracy beliefs. European Journal of Social Psychology.

Swami, V.; Chamorro-Premuzic, T. & Furnham, A. (2009).Unanswered questions: A preliminary investigation of personality and individual difference predictors of 9/11 conspiracist beliefs. Applied Cognitive Psychology, 24 (6): 749-761.

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